Centro de Arte Contemporânea Graça Morais
 

Graça Morais

Biografia
“Um quadro é sempre o lugar da minha maior intimidade. Estou lá toda. Tudo o que absorvo do exterior passa primeiro por dentro de mim, pelas minhas vísceras, pela minha cabeça. E depois sai e fica numa tela” (Graça Morais, 2002).

1948
Nasce Graça Morais na 17 de Março de em Vieiro, Trás-os-Montes, distrito de Bragança.

1955
Frequenta a escola primária de Vieiro. “Estudávamos todos juntos, e tenho ideia de uma grande confusão de coisas, a geografia e a gramática, a tabuada e a história. Eu desenhava cerejas, uma chávena e um bule que havia lá em casa” (Graça Morais, 1984) (1)
1957–58
Vive em Moçambique. “Foi lá que o meu pai me deu a minha primeira caixa de aguarelas” (Graça Morais, 1984) (1)
1959
Regresso a Vieiro. Começa a frequentar o colégio de Vila Flor.
1961
Ingressa no Liceu de Bragança. Nos anos seguintes, pinta os cenários para uma representação do Auto da Alma, de Gil Vicente, e colabora no jornal do liceu. “Comecei a desenhar para as festas de fim de período, mas lembro-me que tinha saudades de Vieiro, da liberdade da aldeia” (Graça Morais, 1984). (1)
1966
Ingressa na Escola Superior de Belas-Artes do Porto [ESBAP] para estudar pintura. Chagall (“umas estranhas cores, um ambiente místico que me atraíam”) e Van Gogh são as suas primeiras referências.
1970
Primeira viagem ao estrangeiro, a Londres, Amesterdão e Paris: “Foi esse o meu primeiro contacto a sério com as obras de arte”. Descobre a pintura de Francis Bacon. “Em qualquer destas obras [as que Graça Morais viu na Tate Gallery] Bacon trabalha sobre os seus tópicos característicos: deformação e corrupção das formas afastam as suas figuras da figuração convencional, colocando-as per se no espaço de pintura (que, mais tarde, será consequentemente, o espaço de uma arena de circo)” (António Mega Ferreira, 1985). (1)
1971
Conclui o curso de pintura e apresenta a exposição de avaliação do 5º ano na ESBAP.
1972
Vai viver para Guimarães, onde lecciona Educação Visual. É aí que, em 1974, expõe pela primeira vez, no Museu Alberto Sampaio.
1974
Nasce a filha Joana, fruto do primeiro casamento com o pintor Jaime Silva.
1975
Participa nos Encontros Internacionais de Arte de Viana do Castelo. Funda, com oito artistas e um crítico de arte, o Grupo Puzzle, com o qual colaborou em todas as exposições colectivas e perfomaances do Grupo durante dois anos.
1976–78
Vive em Paris como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. Conhece Arroyo e Rancillac e aprofunda o estudo das obras de Picasso, Matisse e Cézanne. Em Maio de 1978, realiza uma exposição individual no Centro Cultural Português em Paris. “Um elemento chave: o papel com que se decoravam as prateleiras da cozinha, cheio de histórias, o caçador, o cão, um leitão, a paisagem, os pássaros. E, à volta destas histórias, Graça tece outras histórias, mistura o passado e o presente. Um olhar simultaneamente próximo e impiedoso” (Egídio Álvaro, 1978).
1980
Exposição na SNBA [Sociedade Nacional de Belas-Artes]: O Rosto e os Frutos. “É estranha, inesperada, esta voracidade animal com que os doces frutos se organizam na escalada de um rosto” (Fernando de Azevedo, 1980).
1981
Vai viver para Vieiro. “Retrouver et dire sa vie”, título de um texto que publicara em Paris, passa a ser o móbil condutor da sua obra. Exposição individual na galeria Roma e Pavia, no Porto. Inicia séries de grandes dimensões, onde se destacam a incisão do traço e a expressividade dramática da encenação dos motivos que desenha.
1982
Visita à Westkunst, em Colónia, à Documenta de Kassel e à Bienal de Veneza.
1983
Inicia a sua relação profissional com o galerista Manuel de Brito e expõe na 111, em Lisboa, e no Museu do Abade de Baçal, em Bragança. “Foi através [da exposição na 111] que se consolidou o chão que Graça Morais pisa: porque, ocupada a superfície escrita, se equilibra em todo o conjunto, a significância do branco, descobrindo-se por aí o específico peso do silêncio que preenche o terreno delimitado pelas linhas, cada vez mais cheias e marcadas, pincelada ou traço de carvão, como quem marca o território inviolável onde se desenha uma aventura sem paralelo, a que conduz o pintor à mais funda reflexão sobre a sua linguagem” (António Mega Ferreira, 1985).
Integra a representação portuguesa à Bienal de S. Paulo e recebe o 1.º Prémio na Exposição Nacional de Desenho, realizada na Cooperativa Árvore, Porto.
1984
Expõe no Museu de Arte Moderna de S. Paulo: Mapas e o Espírito da Oliveira, cujos trabalhos apresenta previamente em Lisboa, na SNBA. “E aqui se percebe quão grande é a sensibilidade de Graça Morais, nessa luta pela sobrevivência, nos gritos que saem do fundo da alma, nas mãos abertas em defesa ou protesto, nas lágrimas do homem ou de um animal, na flor que desabrocha de uma gota de sangue, num mundo em que os homens e bichos parecem fundir-se num mesmo rosto” (Bruno Musatti, 1984)
Expõe vinte desenhos na Cooperativa Árvore. Integra a exposição Onze Jovens Pintores Portugueses, no Instituto Alemão, em Lisboa, comissariada por Rui Mário Gonçalves.
1985
Mapas e o Espírito da Oliveira é apresentada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A mesma série, acrescentada da série Erotismo e Morte, figura na exposição da Universidade de Granada. “Na presente série, os rostos das mulheres emergem interiormente do ritmo caligráfico geral do desenho. E, tematicamente, temos facas, tenazes, mutilações, matança ritual, seja de porcos ou cavalos, e visões estranhas; mais ainda, esses elementos são expressos fragmentária ou elipticamente, indicando o facto sem necessidade de recorrer a uma narração literal” (Mário Barata, 1985).
É publicada a monografia Graça Morais: linhas da terra, de António Mega Ferreira. (1)
1987
Colabora com capa e dez desenhos na ilustração de O Ano de 1993, de José Saramago.(2) Exposição em Lisboa, na galeria 111: Evocações e Êxtases.
Participa em colectivas de pintores portugueses em Madrid, S. Paulo, Rio de Janeiro e Washington.
1988
A convite do Embaixador de Portugal, José Fernandes Fafe, visita Cabo Verde.
Relaciona-se com o meio artístico local e é um dos fundadores da primeira editora cabo-verdiana independente, a Ilhéu Editora. No ano seguinte, expõe o resultado da sua residência artística no Centro Cultural Português, na Cidade da Praia, e no Mindelo. “O cromatismo local, a cor da terra escura e a cinza perpassam nesta série em que se registam algumas realidades locais. […] Retratos de mulheres, representações de brinquedos, temas ligados à lavoura e à vida campestre, no fundo já presentes na obra da autora, transitam para esta série, em que poderíamos dizer que se não fosse o refrear de uma truculência surrealizante, apenas se tinha verificado uma mudança de cor de pele nas personagens retratadas” (Sílvia Chicó, 1997).
Assina o desenho da capa e quatro ilustrações para O Príncipe Imperfeito, de Clara Pinto Correia.(3)
1990
Expõe trabalhos recentes, posteriores ao seu regresso de Cabo Verde, em Macau.
“Sob o signo da metamorfose. Uma viola é também um barco, avançando no continente desconhecido do corpo e do mundo, sedutores como os frutos. A máscara tem a presença de um rosto vivo e as figuras olham-nos com a fixidez de máscaras” (Maria João Fernandes, 1990).
Capa e oito ilustrações para Curriculum Vitae, de José Fernandes Fafe.(4)
1991
Recebe o Prémio SocTip - Artista do Ano. Painel de azulejos para o novo edifício Sede da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa. Está representada na exposição sobre arte nas embaixadas ibero-americanas, em Washington.
1992
Visita o Japão, acompanhando uma viagem do Centro Nacional de Cultura. O diário pintado da viagem (com textos de Jorge Borges de Macedo e Alberto Vaz da Silva) será publicado no ano seguinte.
Exposição da série O Mundo à Minha Volta na galeria Kimberly, em Washington, e na Scott Allan Gallery, em Nova Iorque.
1993
Realiza a cenografia para a peça Os Biombos, de Jean Genet, levada à cena pelo Teatro Experimental de Cascais de Carlos Avillez. Exposição antológica da sua obra no Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães. Casa com o músico Pedro Caldeira Cabral.
1994
Exposição antológica na inauguração da Galeria da Mitra, em Lisboa. Participa na colectiva Waves of Influence, sobre cinco séculos de azulejaria portuguesa, nos EUA.
1995
Cenografia e figurinos para a peça Ricardo II, de Shakespeare, com encenação de Carlos Avillez, no Teatro Nacional D. Maria II em Lisboa. Exposição da série As Escolhidas, na 111 em Lisboa. “O que aqui vemos são pessoas reais e nas tarefas ancestrais que a curva das suas mãos testemunha. É certo que ganharam aqui um sentido épico na sua evidência inequívoca. Mas isso deve-se à comprometida sensibilidade da pintora, que cada vez mais procura à sua volta uma parte fundamental de si mesma” (Manuel Hermínio Monteiro, 1994).
1997
Exposição antológica Memória da Terra, Retrato de Mulher, na Culturgest, em Lisboa, e no Museu Soares dos Reis, no Porto. “O país tratado pela artista é um país que vai deixando de ser real que já só é possível realizar através dos mecanismos da representação (re-apresentação) artística, da re-criação imagética, da reconstituição imaginária - uma memória etnográfica; um país virtual” (João de Lima Pinharanda, 1997).
Inaugura um painel de azulejos na estação Bielorrússia do Metro de Moscovo. Exposição na Galeria Ratton, em Lisboa, dos painéis de azulejos Os Cães. É editado o livro Graça Morais, com textos de Vasco Graça Moura e Sílvia Chicó,.(5) “As Escolhidas” filme de Margarida sobre a obra de Graça Morias para a RTP
1998
Exposição na Galeria 111 do Porto: Geografias do Sagrado.
1999
A mesma exposição é apresentada em Itália, na cidade de Trento, e em Lisboa, no Palácio Foz.
Expõe Sete Tapeçarias na Galeria Tapeçarias de Portalegre, em Lisboa, e a série Anjos da Montanha, na Galeria Ratton.
2000
Expõe a série Terra Quente - Fim do Milénio, na Galeria 111, em Lisboa. Joana Morais filma o documentário Na Cabeça de uma Mulher está a História de uma Aldeia, sobre a vida e a obra de sua mãe, Graça Morais.
2001
Em Paris, expõe a mesma série no Centro Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian e Deusas da Montanha na delegação do Instituto Camões.
Orpheu e Eurydice, de Sophia de Mello Breyner Andresen, é editado com trabalhos da artista.(6)
2002
Exposição na Galeria 111, em Lisboa: A Idade da Terra. “A Graça talvez não possa, nem queira, chegar à Idade da Pedra. Mesmo os seus retratos em ardósia foram ternas inscrições tumulares, lousas da menina das tranças. Que é infantil, a sua mundividência? Não, bem feminina, já foi dito - mas mediterrânica, de um arcaísmo mais fiel ao luto que à retaliação” (Maria Velho da Costa, 2002). Pinturas para Um Reino Maravilhoso, de Miguel Torga.(7)
2003
Exposição antológica A Terra e o Tempo, no Museu da República Arlindo Vicente, em Aveiro. Nessa ocasião é editado pela Câmara Municipal de Aveiro o livro A Terra e o Tempo: pintura e desenho 1987–2003.(8) “Com Graça Morais acontece, de facto, uma humildade cheia de dignidade, a conduzir o convulsivo à aproximação duma serenidade, agora, frequentemente também, propiciatória da radical simplicidade expressiva” (Fernando Pernes, 2003).
2004
Concebe painéis de azulejos para a estação de Metro da Amadora e para a central eléctrica de Vilar de Frades. É editado o livro O Segredo da Mãe, com texto de Nuno Júdice sobre pinturas de Graça Morais.(9)
2005
Expõe, na Galeria 111 do Porto, a série Visitação. “Como não ver nestes rostos martirizados, como no horror destas cabeças degoladas de animais, máscaras da morte e do tempo? Como não reparar no modo como a pintura tende como que a desmaterializar-se e a libertar-se da figuração, precipitando-se na expressão extrema?” (Manuel António Pina, 2005).
É editado o livro Uma Geografia da Alma.(10) Expõe Retratos e Auto-Retratos no Centro Cultural de Cascais. Residência artística em Sines, e exposição Os olhos azuis do mar para inauguração do Centro de Artes de Sines.
2006
Diálogos com a Terra, na Galeria Ratton, Lisboa; Retratos e Auto-Retratos, na Galeria de Arte do Teatro Municipal da Guarda.
2006–2007
Graça Morais na Colecção da Fundação Paço d’Arcos - Pintura, desenho e azulejo (1982 a 2006), na Galeria Torreão Nascente da Cordoaria Nacional, Lisboa.
2007
Silêncios, na Biblioteca Municipal de Chaves e no Museu Municipal de Amadeo de Souza-Cardoso, Amarante organizadas pela Cooperativa Árvore do Porto; exposição dos originais de Orpheu e Eurydice, Paços da Cultura de S. João da Madeira e Casa da Cultura da Trofa.
2007–2008
Exposição, de homenagem a Miguel Torga, In sofrimento, no Museu Municipal - Edifício Chiado, em Coimbra.
2008
Graça Morais: Pintura e Desenhos na Galeria 111 (Porto); Graça Morais na Colecção da Fundação Paço d’Arcos, Biblioteca Municipal Almeida Garrett–Galeria do Palácio, Porto.
A 30 de Junho, inauguração do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança. Apresenta em 7 salas, em permanência, obras da autora em rotação com exposições temporárias de outros artistas.
Entre Outubro e Dezembro exposição Pinturas e Desenhos 2008, nas Galerias Do Diário de Notícias em Lisboa e Jornal de Notícias no Porto.

Referências
1 António Mega Ferreira, Graça Morais: linhas da terra ([Lisboa]: Imprensa Nacional–Casa da Moeda, 1985).
2 José Saramago, O ano de 1993, il. de Graça Morais (Lisboa: Caminho, 1987).
3. Clara Pinto Correia, O Príncipe Imperfeito: uma ópera em um prólogo e um acto no universo dos contos tradicionais portugueses, extratextos de Graça Morais (Lisboa: Rolim, 1988).
4. José Fernandes Fafe, Curriculum Vitae, il. de Graça Morais ([Lisboa]: Fragmentos, [D.L.: 1993]).
5. Graça Morais, Graça Morais, com textos de Vasco Graça Moura e Sílvia Chicó (Lisboa: Galeria 111 - Quetzal, 1998).
6. Sophia de Mello Breyner Andresen, Orpheu e Eurydice, il. de Graça Morais (Lisboa: Galeria 111, 2001).
7. Miguel Torga, Um Reino Maravilhoso, il. de Graça Morais (Lisboa: D. Quixote, 2002).
8. A Terra e o Tempo: pintura e desenho 1987–2003, org. Câmara Municipal de Aveiro - Pelouro da Cultura (Aveiro: Câmara Municipal, 2003).
9. Nuno Júdice e Graça Morais, O Segredo da Mãe (Lisboa: Quetzal, 2004).
10. Graça Morais, Graça Morais: uma geografia da alma, com textos de Ana Marques Gastão, Fernando de Azevedo, Fernando Pernes et al. (S. Mamede do Coronado: Bial, 2005).

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