Passar para o Conteúdo Principal

AS ESCOLHIDAS

12 Dez '08 a 28 Fev '09
12 1 980 2500

 

Longe da dramaticidade das cenografias que Graça Morais associara às mulheres nos anos 80, pejadas de grande violência formal e sobretudo simbólica, “As Escolhidas” são um exemplo claro desta mudança no processo de composição e no modo de abordagem do tema.
Sem qualquer plano de fundo e num agudo sentido de síntese, sugestionando ambientes de absoluta serenidade, as figuras são tratadas autonomamente. Por vezes, porque deslocadas do centro da composição, torna-se quase irreconhecível o plano espacial ou não fornecendo ao espectador mais que indícios circunstanciais, que dificultam a percepção imediata do contexto e até a interpretação das cenas e dos gestos que as figuras realizam.
A série, que originará outras variações, começa por surgir de um registo de pequenos trabalhos a sépia sobre papel onde a restrição máxima dos materiais se coaduna com a simplificação dos elementos, resultantes da combinação de linhas e manchas de coloração sépia; capazes de originar aqui uma manifesta “tensão entre o desenho e a pintura que a obra da artista indistingue frequentemente”.
Debruçadas sobre a terra ou de pé, imóveis, repetindo as mesmas poses ancestrais, estas Escolhidas são o retrato de mulheres tranquilas, “abandonadas à sua solidão”, que “aguardam não se sabe o quê nem quem, por vezes encostadas a enxadas que lhes servirão de apoio, instrumentos de ligação a uma terra de sombras sem horizontes”, que a supressão da referência espacial ou de qualquer outro detalhe supérfluo e decorativo acentua.
Os elementos de fundo são substituídos por atmosferas monocromáticas, que concedem às figuras a impressão de estarem suspensas. Outras vezes, chegam-nos em grandes planos, deslocadas do centro da composição, na impassibilidade dos seus afazeres domésticos. As Escolhidas de Graça Morais são passivas, reservadas, vemo-las olhando o chão ou prostradas sobre a terra arada, confundindo-se com ela, em gestos imperceptíveis de quem nela semeia ou colhe, mas sempre alienadas de tudo o que as rodeia.
Nesta aparente similaridade que emana de cada figura, surge vincada a alusão à velhice, sobretudo nas mulheres que, de pé, como troncos de árvores centenárias que projectam a sua sombra no chão, levam a mão à cabeça como se reflectissem a propósito da “solidão, da alienação e da fragilidade, de quem depois das peripécias da vida convive suavemente com a proximidade da morte”.

Comissário: Jorge da Costa
Produção: Centro de Arte Contemporânea Graça Morais
                   Câmara Municipal de Bragança