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VALTER VINAGRE - ENTRE A RUÍNA E O FOGO

16 Nov '19 a 16 Fev '20
Carta do sentir 29 1 980 2500

 

Curadoria: Jorge da Costa

Distante do chamado registo documental que marcaria grande parte da sua trajetória profissional, Valter Vinagre (Avelãs de Caminho, Anadia, 1954) tem produzido através da fotografia uma multiplicidade de imagens sobre os mais diversos temas ou acontecimentos, mas cujo sentido dificilmente se revela num primeiro olhar.
Carregadas de ambiguidade, as suas fotografias parecem comportar-se como representações simbólicas, indo, por isso, muito além da dimensão de mera prova objetiva e manifesta da realidade que representam ou convocam.
Ocultando mais do que desvendando, muitas das suas imagens não nos dão senão velados vestígios dos factos que realmente reportam e, não raras vezes, o acontecimento ou objeto central da sua pesquisa é, propositadamente, deixado de fora do plano visual.
Para Valter Vinagre o que importa como objeto de procura são, por isso, as coisas menos visíveis ou óbvias e é nesta escolha dos detalhes fotografados que a questão autoral mais se afirma. São eles que manifestam o seu modo de ver e de entender o mundo; é através deles que comunica; é com eles que interpela a experiência subjetiva do espectador, colocando-o, por vezes, numa desconfortável posição de voyeur.
Pondo em evidência objetos e atmosferas ou até situações onde, aparentemente, nada parece acontecer, escolhendo temas e instantes que se nos possam mostrar banais, as suas fotografias alicerçam-se num exercício grandemente reflexivo sobre o poder evocativo da imagem e principalmente na análise da condição humana.
Numa obra que continuamente estabelece vínculos com os mais díspares temas e expressões da vida quotidiana, seja em cenários urbanos ou em paisagens naturais, em muitas das suas fotografias continuamente nos deparamos com situações em que, de um modo ou de outro, parece estar subjacente o conceito de ruína ou de fogo. E se o fogo, pela ambivalência ou até pluralidade de significados que lhe são intrínsecos, se manifesta como elemento de destruição ou metáfora de renovação, a ruína é mais ainda um assunto transversal em muitas das imagens ou séries que vem realizando. E não falamos apenas das ruínas arquitetónicas, de despojos ou de memórias, mas fundamentalmente da ruína humana, convocando através dela uma universalidade de temas como a solidão, a dor, a violência doméstica, o desejo, a prostituição ou a morte.
Como aparentes fragmentos desarticulados e desvinculados do seu contexto ou série a que estiveram originalmente ligados, impedindo-nos de construir ligações ou confrontando-nos com a impossibilidade de uma narrativa lógica, as suas imagens não só denegam interpretações unívocas e fechadas, como ganham ainda múltiplos significados decorrentes das novas associações que estabelecem com outras que agora lhe são associadas em contexto expositivo.
Ao percorrermos grande parte dos seus trabalhos, percebemos também que a figura humana não é apenas dominante, mas o centro do seu estudo, mesmo quando, na sua ausência, a sua presença se adivinha plasmada nas marcas, nos objetos ou vestígios deixados na paisagem. Exemplo disso é a série de fotografias Da Natureza das Coisas, que aqui abre a exposição. Nas seis imagens que constituem a série, o mesmo objeto ou despojo é fotografado persistentemente ao longo de vários anos, fazendo, assim, sobressair a potencialidade evocadora da imagem, na contingência de encontrar um sentido, de alcançar uma narrativa coerente ou, tão somente, a possibilidade de um certo alcance estético ou poético.
A atual exposição apresenta-se como um olhar retrospetivo sobre o conjunto da sua inquietante obra, reunindo, em cerca de uma centena de fotografias, algumas das imagens e séries mais emblemáticas da sua carreira, realizadas entre 1988 e 2019, maioritariamente em Portugal, mas também em países como a França, Espanha, Inglaterra, Dinamarca, Tunísia, Brasil, EUA ou Cuba.


Produção: Município de Bragança / Centro de Arte Contemporânea Graça Morais
Colaboração: Fundação D. Luís I, Projeto Travessa da Ermida